1 de Outubro, 2026

É impossível os nossos filhos estarem focados e organizados.

Quis começar o ano letivo a trazer energia e dinamismo ao falar-vos das competências da iniciativa e proatividade. Mas sei que agora é que começam as dificuldades, tanto em casa como na escola e desde os mais pequenos aos jovens. Por isso e apesar de parecerem competências “mais chatas” este mês achei importante trazer o foco, a organização e o planeamento. E acreditem, é algo cada vez mais difícil, não só para os filhos mas também para nós pais. São várias as razões, e é fácil encontrar os culpados como as redes sociais, os telemóveis, jogos, a inteligência artificial, a rapidez com que tudo acontece ou a exigência extrema, impondo um ritmo impossível de acompanhar.

​Encontrar culpados não nos vai ajudar, não sendo fácil, é mais útil tomar consciência das nossas próprias ações para depois podermos utilizar estratégias realmente eficazes.

​Sem nos darmos conta entramos numa espiral que em nada ajuda os nossos filhos e acabamos a reclamar frustrados de que a história repete-se vezes sem conta.

​Acredito que estas ladainhas vos sejam familiares: “Já estudaste?” “Não te esqueças do equipamento?” “Olha que para a semana tens dois testes.” E no meio da impaciência e do cansaço começamos a reclamar que já deviam fazer as coisas sozinhos, como é que é possível só estudar na véspera ou esquecer-se sempre de tudo. Porque no fundo tudo o que queremos é que sejam autónomos e capazes de gerir a própria vida. O problema surge quando eles não fazem e nós vamos por trás e fazemos, resolvemos, tratamos, porque é mais rápido, mais simples do que repetir as mesmas coisas, e começamos a acreditar que de outra forma não vai acontecer, para além de que no fundo não queremos que falhem. E assim entramos numa espiral desgastante: 

eles esperam que nos lembremos → nós lembramos → eles não precisam de se lembrar → nós ficamos ainda mais responsáveis por tudo. E depois perguntamo-nos porque é que eles não se organizam?

Mas antes de exigir, é importante perceber que foco, organização e planeamento fazem parte das chamadas funções executivas — competências que ajudam a criança a manter a atenção, organizar informação, controlar impulsos, definir prioridades e planear o que precisa de fazer. A investigadora Adele Diamond explica que estas competências se desenvolvem ao longo da infância e adolescência e podem ser fortalecidas através da prática e do ambiente em que a criança cresce. Por isso, dizer simplesmente “concentra-te” ou “organiza-te” nem sempre chega. É preciso ensinar o como.

Se uma criança tem vários trabalhos para fazer, em vez de os pais decidirem tudo, podem perguntar:

“O que tens para fazer hoje?” “O que é mais urgente?” “Por onde queres começar?” “Quanto tempo achas que vais precisar?”

O objetivo não é deixar a criança sozinha com a responsabilidade. É ajudá-la a construir, pouco a pouco, a capacidade de assumir essa responsabilidade. Também é útil transformar intenções vagas em planos concretos. Em vez de: “Tenho de estudar.” Podemos experimentar: “Depois do lanche, estudo Ciências durante 30 minutos.”. Este tipo de plano — conhecido na investigação como implementation intention ou plano “se… então…” tem sido estudado precisamente pela sua capacidade de ajudar crianças e jovens a transformar objetivos em ações concretas.

E em relação ao foco? Foco não significa estar concentrado durante horas. Nem nós adultos conseguimos. Significa conseguir voltar à tarefa quando a atenção se perde. Um espaço com menos distrações, o telemóvel afastado, uma tarefa de cada vez e pequenos períodos de trabalho podem ajudar muito mais do que repetir “concentra-te!”.

E deixo-vos o desafio de uma das mudanças mais difíceis e importantes para os pais: deixar de ser o gestor da vida dos filhos e passar a ser o seu treinador. Não é fazer por eles. É ensinar, acompanhar, deixar experimentar e permitir que ajustem quando alguma coisa não resulta. A autonomia não nasce quando os pais deixam de ajudar.Nasce da segurança de que podem tentar, errar, persistir e saber que no fim da linha os pais estarão sempre lá para apoiar e não para fazer por eles. No fundo é menos lembretes e mais perguntas.

É assim, através de pequenas oportunidades todos os dias, que foco, organização e planeamento deixam de ser apenas palavras e se transformam em competências para a vida.

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