29 de Junho, 2026

É POSSÍVEL APRENDER A RIR?

​Quando se fala nas competências que ajudam crianças e jovens a desenvolverem-se de forma saudável, raramente o humor surge nos primeiros lugares da lista. Falamos de autoestima, comunicação, empatia, responsabilidade ou resiliência. No entanto, o humor está presente em muitas destas competências e pode ser um poderoso aliado no desenvolvimento emocional, social e até cognitivo.

Deixar bem claro que o humor aqui não é visto como uma crítica ou gozo, não se trata de ridicularizar ou fazer piadas à custa dos outros. E sim o humor como a capacidade de encontrar leveza nas situações, de relativizar dificuldades, de criar ligação através do riso e de manter uma perspetiva mais flexível perante os desafios da vida.Num mundo onde crianças e jovens vivem cada vez mais expostos a pressões, exigências e ansiedade, talvez seja tempo de devolver ao humor o lugar que merece.

​A psicologia define o humor como uma capacidade de perceber, apreciar ou expressar o lado divertido, curioso ou inesperado das situações. E este pode assumir diferentes formas, algumas promovem bem-estar e relações saudáveis, enquanto outras podem prejudicar a autoestima e os relacionamentos. Um dos modelos mais estudados é o de Rod Martin, que identificou quatro estilos de humor:

Humor afiliativo, que é o humor que aproxima pessoas, cria ligação e promove relações positivas.

Exemplo: Uma família que consegue rir junta de pequenos imprevistos do dia a dia.

Humor de autoaperfeiçoamento, é a capacidade de encontrar leveza mesmo em momentos difíceis.

Exemplo: Uma criança que, depois de falhar algo, consegue relativizar e continuar a tentar.

Este estilo está associado a maiores níveis de resiliência e bem-estar psicológico.

Humor agressivo que inclui sarcasmo, ridicularização e piadas à custa dos outros.

Embora por vezes seja socialmente aceite, está associado a maiores dificuldades relacionais.

Humor autodepreciativo, acontece quando a pessoa se diminui constantemente para fazer os outros rir.

Pode parecer inofensivo, mas relaciona-se frequentemente com menor autoestima.

​O humor permite criar distância emocional suficiente para que a pessoa não fique presa ao problema. Em vez de amplificar a dificuldade, ajuda a flexibilizar o pensamento e a encontrar novas perspetivas. A investigação tem demonstrado que pessoas que utilizam formas positivas de humor apresentam níveis mais elevados de bem-estar psicológico e de maior satisfação com a vida, pois conseguem adaptar-se melhor ao stress tendo mais resiliência e criam melhores relações interpessoais. Então o humor saudável é aquele que promove a proximidade e fortalece relações, reduz tensões ou conflitos, ajuda a lidar com dificuldades e permite rir com os outros, não dos outros. Este é o tipo de humor que queremos ajudar as crianças a desenvolver.

​Apesar de na parentalidade sempre se associar de que a educação tem de ser séria é importante trazer momentos de alegria partilhada, nas brincadeiras entre todos, nas histórias divertidas que criam memórias afetivas positivas, na capacidade de se rir de si próprio. Esta aprendizagem faz-se pelo exemplo, pelo forma como nós pais reagimos a um contratempo ou como encaramos o dia a dia.

Humor e empatia podem ser uma combinação poderosa, pois o humor mais saudável é aquele que faz rir sem magoar, ou seja ao desenvolver o humor também estamos a ajudar a desenvolver a empatia. Uma boa pergunta para fazer às nossas crianças é: “Estamos a rir com esta pessoa ou desta pessoa?” A resposta ajuda-as a compreender a diferença entre o humor que aproxima ou o humor que fere.

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