Setembro chega e parece que alguém carregou no botão da velocidade, de repente, há horas para acordar, roupa para preparar, pequenos-almoços para despachar, mochilas para verificar, trabalhos para entregar, atividades para conciliar… E há uma frase que começa a fazer parte das manhãs: “Já te disse para te despachares!”
E ainda acrescentamos: “Já lavaste os dentes?”, “A mochila está pronta?”, “Não te esqueças do equipamento!” E quando finalmente todos saem de casa, fica aquela sensação de que já se fez uma verdadeira prova de resistência ainda antes das 8 da manhã.
Mas há uma pergunta que gosto de trazer aos pais: Porque é que ainda é preciso lembrar tantas vezes? Ao que me dizem: “Se eu não for assim, ele não faz.” E muitas vezes, é verdade, se ninguém disser, a mochila fica por preparar, se ninguém lembrar, o trabalho fica para amanhã, se ninguém verificar, talvez falte o material. Então os pais fazem, porque é mais rápido, porque têm medo que a criança se esqueça, porque não querem que comece o ano letivo com dificuldades, porque, no fundo, querem ajudar. E é precisamente aqui que aparece um paradoxo da parentalidade: quanto mais fazemos pelos nossos filhos para que tudo corra bem, menos oportunidades lhes damos para aprenderem a fazer por si. Não porque os pais estejam a fazer alguma coisa errada. Mas porque cuidar também é saber confiar e progressivamente deixar de fazer.
Quando se fala em iniciativa e proatividade, é fácil pensar num adolescente responsável, que organiza o estudo, cumpre prazos e sabe o que precisa de fazer, mas essa competência começa muito antes, começa quando uma criança percebe: “Tenho um problema. Posso tentar resolvê-lo.”, quando procura a mochila antes de chamar a mãe. Quando tenta perceber como montar um brinquedo antes de pedir ajuda. Quando prepara a roupa para o dia seguinte. Quando percebe que precisa de estudar. Quando tem uma ideia e decide experimentá-la. São pequenos momentos, mas é através deles que se constrói uma grande aprendizagem: “Eu sou capaz de agir.”
E se, em vez de resolver, perguntasse? Vamos ver a situação: “Mãe, não encontro a minha mochila!” A resposta automática costuma ser: “Está no sofá. Eu vou buscar.” É rápido. Mas vamos experimentar de outra forma:
“Onde já procuraste?”, “Onde achas que pode estar?”. Parece uma alteração insignificante, mas naquele momento não encontrou apenas a mochila, encontrou uma solução. É assim que a iniciativa se constrói com uma pequena experiência de cada vez.
Mas e se ele não fizer? Esta é provavelmente a maior dificuldade, porque deixar fazer também significa aceitar que as coisas podem não ficar como os pais gostariam. E é aqui que entra uma das partes mais difíceis de educar: permitir pequenas consequências para evitar grandes dependências no futuro. Não significa deixar a criança desamparada. Significa permitir que experimente consequências adequadas à sua idade, num ambiente seguro, e ajudá-la a refletir sobre elas. E quando a resposta for “não sei”? É aqui que muitos adultos entram automaticamente em ação. Porque iniciativa não significa ter sempre a resposta. Significa aprender a procurar o próximo passo. E saber pedir ajuda também faz parte da proatividade.
A ciência explica porque isto é importante. A investigação sobre autorregulação mostra que a capacidade de gerir comportamentos, emoções, atenção e objetivos durante a infância está associada a importantes resultados posteriores, incluindo desempenho académico, competências sociais e saúde mental. Ou seja, organizar a mochila não é apenas organizar a mochila. Lembrar-se de levar o equipamento para o treino não é apenas isso. São oportunidades para praticar competências que serão necessárias muito depois de terminar a escola.
“Mas ele ainda é pequeno…” Claro que é. E não se espera que uma criança de seis anos tenha a autonomia de um adolescente de quinze. A iniciativa desenvolve-se progressivamente e com apoio. A Teoria da Autodeterminação, de Edward Deci e Richard Ryan, identifica a autonomia e a competência como necessidades psicológicas fundamentais para a motivação e o desenvolvimento. Isto não significa “deixar a criança fazer tudo sozinha”. Significa dar-lhe oportunidades adequadas para escolher, experimentar e sentir que é capaz.
Talvez o problema não seja falta de autonomia, talvez, por vezes, seja excesso de intervenção. Esta é uma reflexão desconfortável para qualquer pai ou mãe. Porque queremos proteger, queremos facilitar, e queremos evitar sofrimento. Mas não podemos evitar todas as dificuldades, nem devemos. São as pequenas experiências que constroem algo muito maior: a confiança de que consegue lidar com aquilo que aparece.
Porque, no fundo, é isto que queremos para eles, queremos filhos responsáveis, mas também queremos filhos capazes de pensar por si. Queremos que saibam cumprir, mas também que saibam tomar iniciativa. Queremos que peçam ajuda, mas também que tentem primeiro. Queremos que tenham sucesso e sobretudo, queremos que quando a vida lhes colocar um problema à frente, não fiquem paralisados à espera que alguém apareça para o resolver. É essa mudança de “alguém tem de resolver isto” para “eu posso fazer alguma coisa” que está no coração da iniciativa e da proatividade.
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