31 de Maio, 2026

Ainda conseguimos olhar para além de?

Muito se fala da falta de ligação em que todos andamos. Apesar de podermos ter milhares de “amigos” nas redes sociais, na vida real sentimo-nos cada vez mais sozinhos. Falta presença. E se isto já é válido para adultos de qualquer idade, torna-se ainda mais preocupante quando falamos de adolescentes e crianças.

Neste dia a dia acelerado, automático e cada vez mais individualista, vai-se perdendo uma capacidade essencial ao nosso bem-estar: a capacidade de estar verdadeiramente com o outro. Pais que dizem já não sabem como chegar aos filhos. Jovens incapazes de se olharem nos olhos e, muitas vezes, incapazes até de se olharem a si próprios. Crianças que multiplicam comportamentos de chamada de atenção na esperança silenciosa de que alguém pare e as veja de verdade.

É urgente recuperar esta capacidade de reconhecer, compreender e respeitar as emoções, as necessidades e as perspetivas dos outros, e também as nossas. É urgente resgatar a empatia.

Hoje em dia, tudo parece ser culpa das novas tecnologias ou da inteligência artificial. Mas, em vez de exteriorizarmos apenas a nossa impotência ou paralisarmos com medo do futuro, talvez possamos escolher agir no presente. E essa ação pode começar em algo aparentemente simples: parar. Parar para olhar nos olhos dos nossos filhos e dizer-lhes o quanto são importantes. Parar para escutar sem pressa. Parar para sermos presença ativa na vida uns dos outros. É nesses pequenos momentos que se desenvolve uma das competências humanas mais importantes para o bem-estar e para a qualidade das relações: a empatia. A capacidade de sentir com o outro, a empatia emocional, e a capacidade de compreender o ponto de vista do outro, a empatia cognitiva. No fundo, perceber que o outro também sente, pensa, reage e carrega as suas próprias batalhas.

Mas essa mudança precisa de começar dentro de cada um de nós. Talvez o primeiro passo seja parar de fugir constantemente do que sentimos. Aceitar as nossas emoções, escutar o que elas nos dizem através do corpo e da mente, e deixar de viver numa corrida permanente onde o tempo parece sempre o grande inimigo. Colocarmo-nos também como prioridade, não num lugar de egoísmo, mas de consciência. Desenvolver a capacidade de nos olharmos com mais compreensão e menos crítica, ter essa empatia de nos aceitarmos como somos, de olhar para o nosso mundo interno sem crítica, para então estarmos disponíveis para os outros.

A empatia não se aprende na teoria. Aprende-se sobretudo na forma como vivemos e nos relacionamos. São os pequenos gestos do quotidiano que mostram às crianças o que significa respeitar o outro. Quando falamos sem humilhar, quando escutamos sem julgar, quando validamos emoções sem necessariamente aceitar todos os comportamentos. Porque empatia também é saber colocar limites. Também é dizer “não” quando isso protege, orienta e ajuda a crescer.

As crianças observam tudo: a forma como reagimos no trânsito, como tratamos quem nos atende, como falamos de outras pessoas. Observam se somos capazes de reconhecer que talvez não saibamos tudo sobre a história do outro antes de o julgarmos. Observam se conseguimos mostrar que, num conflito, podem existir diferentes perspetivas válidas. Entre irmãos, por exemplo, é essencial ajudá-los a perceber que cada um sente a situação à sua maneira e que compreender o outro não significa deixar de existir ou perder razão.

Talvez seja precisamente aqui que a empatia começa: não na necessidade de ter razão, mas na capacidade de continuar disponível para compreender. E no meio de tanta pressa, distração e ruído, talvez a pergunta mais importante seja:

Ainda conseguimos parar o suficiente para ver verdadeiramente quem está à nossa frente?

OUTRAS SUGESTÕES DE LEITURA

Estou à vossa espera para podermos Sonhar Juntos!

"O mais importante é que os pais, professores, educadores e cuidadores em geral se sintam capacitados e capazes de lidar com os desafios do dia a dia."

    +351 919 757 060 // +351 915 468 766

    sonhos@inessottomayor.pt