Férias o Ano todo?!

É tempo de férias, tempo de lazer de descontrair e aproveitar! Será?

Acredito que muita da nossa ansiedade está relacionada com as expectativas, os cenários idílicos que criamos, quer seja pelo desgaste que vamos acumulando durante o ano, quer seja pela nossa necessidade de sentir que estamos a fazer tudo bem e temos a família perfeita. Claro que é importante imaginar e desejar o melhor, o que é diferente de imaginar e desejar o irreal e impossível.

Vamos criando imagens de que as férias vão ser perfeitas, que vamos descansar, que não vai haver birras, nem discussões, que finalmente vamos usufruir da nossa família e descontrair. A verdade é que não existem filhos sem birras, famílias sem percalços, relações sem desafios. O que existe são formas de percecionar tudo isso como oportunidades de crescimento, de fortalecer os laços e desenvolver novas estratégias.

Mas será que o tempo de férias tem mesmo de ser assim algo tão disruptivo que altere toda a dinâmica familiar, talvez isso seja saudável para uns e prejudicial para outros, ou talvez estejamos a ver o nosso dia a dia de uma forma tão pesada e negativa que as férias tornam-se no único escape possível.

Fomos educados nesta dicotomia em que trabalhar é mau, é pesado e só o fazemos para ter “direito” às férias.

Dizemos aos nosso filhos que primeiro têm de fazer os trabalhos e depois podem ir brincar, e depois estranhamos que quando queremos que eles estudem, leiam um livro ou façam fichas nas férias, nos respondam “mas são férias, é para brincar!”. Foi assim que nos ensinaram e por isso repetimos o que aprendemos e vamos criando as nossas próprias armadilhas.

Então como podemos trazer as férias para o resto do ano? Para que depois quando elas realmente acontecem tudo se torne mais fluido.

Uma possibilidade é ao longo do ano juntar, juntar o lazer e o trabalho, o lúdico às obrigações, o nosso dia-a-dia não tem de ser penoso, muito pelo contrário, podemos “tirar férias” em vários momentos, as rotinas são importantes, quebrá-las também. Retirar prazer das pequenas coisas, aproveitar mais o momento e permitirmo-nos sem culpa, sem tem que!

É algo que eu própria estou a aprender, todos os dias, o deixar fluir, e sei que não é fácil, e também sei que quando o consigo é muito mais saudável e alinhado com o que acredito e por conseguinte melhor para todos!

E assim, quando chegam as férias “à séria”, acaba por ser uma transição mais suave, sem destabilizar emocionalmente, em que se consegue um maior equilíbrio, em que os nossos filhos sabem gerir o ficar desempregados e tirarem proveito desse tempo tão preciso de não ter nada para fazer, lidar com o tédio é algo muito importante, estimula a criatividade e ajuda a aprender a gerir as frustrações, para além de que sem rede de segurança os nossos filhos aventuram-se para fora da sua zona de conforto, exploram situações novas. E quem sabe que grandes aprendizagens as férias nos podem trazer, fico à espera dessas aventuras!

Somos Seres Sociais

Um dos motivos que hoje em dia deixa os pais mais preocupados, é a socialização dos seus filhos. Por várias razões diferentes, mas todas têm em comum a dificuldade deles terem e manterem

relações saudáveis entre os pares.
A questão da pandemia e o isolamento a que fomos obrigados é dos primeiros pontos que os pais me trazem. E é facto que os vários confinamentos retiraram a hipótese de socializar presencialmente e com isso todas as aprendizagens implicadas, qualquer que seja a idade. Também é facto que estas circunstâncias apenas exacerbaram uma série de situações que já existiam e que agora tornaram-se ainda mais preocupantes. É por isso fundamental os pais notarem os seus próprios comportamentos, de que forma gerem as suas amizades, o que fazem para fomentar essas relações e as dos seus filhos, pois só assim podemos inverter o ciclo do isolamento.

Outro ponto importante relacionado tanto com a socialização, como também ele aumentado pela pandemia, é o uso excessivo de aparelhos eletrónicos, sejam eles o computador, tablet, telemóvel, para as redes sociais, jogos, séries, o que for. A verdade é que este é um comportamento realmente perigoso, não só em termos sociais como também em termos da própria saúde. Mais uma vez é importante estarmos atentos ao nosso próprio exemplo, quanto tempo eu passo em frente a um ecrã, que regras é que eu talvez precise de colocar para mim mesma, que alternativas eu ofereço ao meu filho que tragam tanto ou mais prazer do que um jogo de computador. Deixar bem claro e definido o que é permitido para todos é o primeiro passo!

Outra situação, infelizmente cada vez mais frequente e em crianças mais novas, são as relações tóxicas, que muitas das vezes também acontecem através das redes sociais. Aquela(e) amiga(o) que obriga a que se faça alguma coisa para que se pertença a um determinado grupo, ou que manipula numa necessidade de atenção e através da vitimização subjuga o outro, relações de dependência extrema que no fundo demonstram uma insegurança e falta de confiança de parte a parte.

Tudo isto acaba por estar interligado à auto imagem que a criança/ jovem tem de si mesma, pois é essa imagem que se vai projetar na relação com o outro. Perceber como os nossos filhos se vêem, ajudar a identificar as suas características como algo mutável que podem sempre desenvolver e não como rótulos e estereótipos que os limitem, é fundamental. Evidenciar as suas forças e como as podem utilizar em ações concretas do dia a dia é outra ferramenta eficaz.

Criar espaço para o diálogo aberto, sem julgamentos, disponível para ajudar a que eles encontrem as suas formas de lidarem com os seus desafios é o que vai permitir que desenvolvam, também eles, relações saudáveis e sustentáveis.

Num contexto cada vez mais virtual é urgente que nós pais demos espaço e tempo para que as relações aconteçam e se desenvolvam num ambiente seguro, afinal de conta somos seres sociais que interagimos num determinado contexto em que estamos inseridos, onde influenciamos e somos influenciados por ele.

A importância da individualidade

No mundo global como o de hoje, em que tantas vezes generalizamos as nossas ideias e rotulamos as pessoas pelas aparências, grupos a que pertencem ou ideias que defendem com todas as consequências que isso acarreta, torna-se urgente respeitar a individualidade de cada um,

a começar pela nossa própria individualidade.

Esse respeito demonstra-se quando valorizamos a diferença, quando temos consciência que é na diversidade de forças, habilidades e pensamentos que surge a riqueza. Quando somos capazes de utilizar o que nos distingue da melhor forma e em prol de um bem maior. Pois dessa forma estamos a ensinar pelo exemplo!

O respeito e a valorização é algo fundamental a semear em cada criança e podemos fazê-lo em pequenas coisas do dia-a-dia que a vão ensinando que nunca deverá esperar menos do que isso.

Uma das situações que eu vejo como mais difícil, quer por experiência própria, quer pelo que os pais me trazem nas sessões, é o olhar para os nossos filhos como seres únicos que estão a construir a sua própria história, sem traços predestinados ou características imutáveis. Quantas vezes já não dissemos, ou ouvimos:

“Eu também era assim introvertida”

“Já a tua mãe era igual, não comia nada”

“É igual a mim, ainda hoje sou muito insegura”

“Tem a quem sair, o pai também era assim quando era pequeno, não parava quieto”

São frases inofensivas mas que carregam o peso de algo que não é dos nossos filhos e sim nosso, e que de alguma forma, pode ser percecionado como um rótulo sobre o qual não há nada a fazer, que não têm a capacidade de mudar.

Outra situação também muito frequente, é querer que eles se distingam em tudo, vão da matemática ao futebol, passando pelo português e o violino sendo exemplares, independentemente do grau de esforço ou vontade. Quando o importante é o nosso olhar atento para perceber o que lhes é mais natural, o que os motiva para assim podermos alavancar as outras áreas com muito menos esforço e distinguirem-se naquilo que lhes dá real prazer e sentido de realização.

Por isso é tão importante libertar os nossos filhos das nossas dúvidas, inseguranças e sim permitirmo-nos a ter um olhar único, um olhar que procura o seu melhor, que distingue as suas forças como se de uma impressão digital se tratasse, valorizando e potencializando essas qualidades, para que se tornem na sua melhor versão, respeitando-se e respeitando os outros pelo de único que cada um tem.

O que é isto de ser mãe?

Não sei se haverá definição do que é ser mãe, ou até se é possível, parece-me muito ambicioso querer definir algo que abarca tanta coisa e é tão complexo. Para mim depende do momento, do que estou a sentir e a experienciar, é algo mutável que cresce e se desenvolve, como os nossos filhos, e nunca será igual para todas as mães.

É importante respeitar, que cada uma de nós irá sentir o ato de ser

mãe de forma diferente, nem melhor, nem pior, o que importa é ser genuíno, é nos respeitarmos e aceitar que nunca seremos mães perfeitas, e essa é a beleza da vida, a nossa diferença, a riqueza de cada um!

Começar por olhar para dentro e pensar, será que me tenho respeitado? Aceito-me com todas essas imperfeições e sem me julgar? Porque são esses nossos medos e frustrações que se vão projetar nos nossos filhos. Não é preciso carregar todo esse peso, pelo contrário. Só nos tornamos responsáveis pela nossa vida quando aceitamos e temos consciência do que queremos.

Para mim, foi importante a consciência de que não é preciso estar sempre a correr atrás de um objetivo, da perfeição e muito mais o desfrutar do caminho, dos vários momentos que compõem e dão significado ao nosso percurso.

Há momentos em que o carinho e a ternura não cabem dentro do meu coração, que dão sentido a tudo o que faço (principalmente quando estão a dormir!) há outros que me sinto frágil, em que ponho tudo em causa, sem saber o que está certo ou errado, que me questiono o que devo fazer. Também há aqueles em que me faltam as forças, em que a responsabilidade parece demasiada e que não vou dar conta, outros ainda em que perco a razão e explodo por me sentir sem saída, momentos há em que rimos, brincamos, dançamos e tudo parece leve, outros de tranquilidade e apenas estar. Os momentos em que o meu olhar brilha de orgulho neles, por tudo o que já conquistaram e pelos seres únicos e especiais em que se estão a tornar. Todos eles fazem desta viagem algo único e especial.

Embarcar nesta montanha-russa não é fácil, nem somos ensinadas, e por isso mesmo é tão desafiante, mas mais do que resistir, para mim, o importante é aprender e deixar fluir, desfrutar de cada volta sem pressa, tirando sempre o melhor de cada momento. Claro que haverá medos, pânico até, e isso não faz de nós piores mães, apenas humanas. Vamos a mais uma volta?

Pois, no fundo, ser mãe é uma bênção, é a possibilidade de aprender com a inocência, é querer ser melhor todos os dias!

Confiar nos nossos filhos

Uma das coisas mais importantes numa relação é a confiança, não necessariamente no sentido de podermos ou querermos dizer tudo o que nos passa pela cabeça, mas principalmente no sentido de podermos contar com o outro, de sentirmos que estará lá para nós de forma incondicional, de que há sinceridade acima de tudo, de que aquilo que vemos e ouvimos é a verdade!

Este último ponto é a chave na relação entre pais e filhos, a ideia de que somos honestos naquilo que dizemos e fazemos, a importância da congruência, que começa connosco próprios e que é a melhor maneira de os ensinarmos.

Por outro lado, a mentira, é algo natural, é algo que fazemos todos os dias sem sequer pensar muito, ou porque é algo que não vale a pena partilhar: “Está tudo bem?” “Sim, tudo a correr bem.”, quando no fundo até pode não estar. Ou porque queremos agradar: “O teu cabelo está tão bonito com esse corte!” e nem achamos assim tanto. Ou porque temos necessidade de nos desculparmos: “Estava imenso trânsito.” Desculpa por chegar atrasada porque na verdade não acordei a horas. Ou ainda porque temos medo da reação do outro e de dececioná-lo: “Não vou poder ir aos teus anos, porque estou super doente.” E apenas nos apetece ficar tranquilos em casa.

Com as crianças não é diferente, o importante é a forma como nós adultos lidamos com isso, para que não se torne um padrão. Tentar perceber o que levou as crianças a mentir, é o primeiro passo, não digo com isto que procurem um porquê, até porque provavelmente a criança não saberá responder porque muitas das vezes é algo inconsciente, e sim ajudar a compreender o que ela ganharia com a mentira, que objetivo teve ao formular uma mentira, o que é que a fez sentir necessidade de mentir.

Muitas das vezes a mentira está associada a não querer dececionar os pais, medo dos castigos se disser a verdade, querer muito alguma coisa que acredita que de outra forma nunca terá.

Se optarmos por castigar a verdade, por pior que ela seja, estamos a passar a mensagem inconsciente, de que para a próxima o melhor é mentir, podemos sim, em conjunto perceber as consequências dos seus atos e ajudar a lidar com isso. Ajudá-los a descobrirem outras formas de se expressarem, reforçar a coragem que é necessária, muitas das vezes, para dizer a verdade e acreditar que o nosso filho é capaz de fazer diferente, melhorar e desenvolver as suas capacidades.

E nós será que estamos a ser sinceros connosco e com os nossos filhos? Falamos verdadeiramente sobre o que sentimos e damos espaço ao diálogo, para que também eles se possam expor? A importância de acolher o que eles nos dizem, sem criticar, sem julgar e sem respostas prontas é meio caminho andado para dar espaço à verdade e que se estabeleça uma relação de confiança.

Por isso deixo o convite para estar atento à forma como reage à mentira e de que forma será possível fazê-lo para que não perpetue o comportamento?