Relações familiares – o que quero construir?

É-nos passada a ideia de que é suposto saber lidar com as relações na nossa família, que é algo que já se nasce ensinado. Infelizmente nada mais longe da verdade, mas como é suposto todos sabermos, não nos dispomos a aprender, muitas das vezes só conseguimos ver que os outros estão errados!

O grande erro, porém, começa quando nos colocamos neste lugar de espectadores à espera que os outros mudem e alterem

a sua maneira de pensar e agir, e isto é válido para qualquer relação, com os nossos filhos, parceiros, pais, amigos e até connosco próprios.

A primeira coisa que acredito ser importante ter consciência é: para onde eu tenho escolhido olhar? Para o que está bem com o meu filho e os seus pontos fortes, ou para aquilo que não funciona e ele faz mal? Para onde eu coloco o meu foco é para onde eu me dirijo, o nosso cérebro leva-nos para onde estamos a pensar, mais ainda, faz-nos ter comportamentos que levam os outros a dar respostas que vão de encontro ao que nós esperamos! Ou seja, se eu acredito que o meu filho não gosta da escola, de estudar e não tem boas notas, eu só vou conseguir focar-me nas más notas que ele tenha, mesmo que pelo meio venha um comentário positivo de algum professor, eu só vou dar atenção aos momentos em que ele não estuda, mesmo que ele se tenha esforçado por 5m. Para além disso toda a minha comunicação, postura e comportamentos vão reforçar essa ideia, talvez eu diga “Já estava à espera desta nota, não te vi a estudar nada!” ou faça um ar de descrédito quando ele diz que vai fazer os trabalhos, ou desconfie e vá certificar-me se está a estudar ou não. Tudo é em função do foco que eu decido ter. Mas então se é uma opção nossa, porquê focar no que é negativo, naquilo que não queremos que aconteça? Há várias razões que nos levam a ter esta mentalidade negativa, é quase um comportamento automático, seja por razões culturais, de educação, de que é mais fácil, entre muitas outras. Por isso acredito que o primeiro passo é a consciência do modo de pensar e operar que mais usamos com os nossos filhos, porque agora perante tudo isto e mesmo sabendo que há razões que até podem justificar e nos levar a agir desta forma, agora, podemos escolher. Escolher o foco que queremos ter para com os nossos filhos, qual o foco que queremos que eles aprendam e qual é que escolhemos na relação que estamos a desenvolver com eles.

O outro ponto fundamental é a diferença entre expectativas e objetivos. Normalmente o que fazemos em relação a tudo, e principalmente em relação aos nossos filhos é ter expectativas, é imaginar o que desejamos que aconteça e quando o fazemos, colocamo-nos a nós num lugar passivo, de espectadores, e a eles num papel quase impossível de atingir, que é terem a responsabilidade de chegarem ao que nós pais desejamos, às nossas expectativas. O que gera frustração, ansiedade e até raiva para ambas as partes. Então em vez de colocar expectativas podemos experimentar colocar objetivos, o que nos obriga a saber o que queremos, obriga a mudar o foco para o que realmente é importante e que eu quero que aconteça. A partir do momento em que fazemos esta mudança, tornamo-nos ativos, passamos a agir em vez de estar à espera que aconteça. É sermos responsáveis pelo que desejamos da relação com os nossos filhos.

Deixo agora ficar essa responsabilidade (e que bom podermos ser responsáveis pelas nossas escolhas) para onde escolhe direcionar o seu olhar, que relação quer construir com o seu filho?

Métodos de Estudo

Uma das grandes preocupações dos pais nos dias de hoje é a falta de metodologia dos filhos quer em termos de organização das tarefas da escola, quer do próprio estudo.

A verdade é que a grande maioria das escolas exige mas não dá as ferramentas para que tenham o maior aproveitamento possível. Vemos muitas das vezes um acompanhamento presente durante o 1º ciclo e quando chegam ao 5º ano e lhes falta

essa “muleta” sentem-se perdidos, com as consequências que daí advém: falta de motivação, desinteresse, resultados aquém das expectativas.

Esta realidade acontece porque infelizmente em vez de lhes passarmos técnicas e metodologias, vamos fazendo por eles, quer em casa, quer até na escola. Ou porque é mais rápido e mais simples, a curto prazo, quer por falta até de conhecimento dessas ferramentas e por isso acabamos por transmitir da mesma forma que sempre fizemos e sabemos. Os resultados que obtemos são crianças dependentes, sem autonomia ou iniciativa, sem conseguirem imaginar que pode haver várias maneiras de abordar a mesma questão o que traz a desmotivação e desinteresse pela escola.

Primeiro acho fundamental não distinguir entre trabalho e prazer e sim agregar, parece-lhe estranho? Pode ser tão simples como perguntar aos nossos filhos / alunos de que forma podem fazer os trabalhos de forma divertida? Como gostariam de os fazer?

E nós? Como podemos tornar o nosso trabalho prazeroso? Os trabalhos não precisam de ser pesados e penosos e sim uma fonte de prazer que nos leve ao gosto pela aprendizagem.

Depois é importante perceber de que forma os nossos filhos absorvem conhecimento, através de simples sinais:

Será que é uma criança que precisa de estar sempre a movimentar-se? Estar sentado é uma tortura? Talvez estudar em pé, escrevendo num quadro, ou por períodos mais pequenos com pausas a intercalar possa ser uma hipótese.

Ou será que está sempre a cantar ou a falar pelos cotovelos? Quem sabe dizer alto a matéria como se estivesse a dar uma aula, ou estudar com música possa ajudar.

Ou por outro lado é aquela criança que se distrai com tudo e tem uma grande imaginação? Nada como estudar através de imagens ou fazer desenhos para ajudar na concentração.

Também nós pais e professores podemos mudar o nosso olhar e em vez de vermos como fraquezas ou problemas, potenciar aquilo que eles têm como apetência e naturalmente lhes é mais fácil e desenvolver para que se tornem forças mas usadas de forma intencional.

Podemos então, de forma prática, auxiliar com várias metodologias de estudo, não as colocar como algo imposto e sim como opções que podem escolher.

Felizmente já há muita informação à nossa disposição, apenas a título de exemplo deixar-vos as mais importantes que podem explorar e começar a aplicar desde já:

  • Técnica do Pomodoro
  • Lista de tarefas com priorização
  • Planeamento do dia seguinte
  • Picture Walk
  • Recall
  • Flash Cards
  • Mind Maps
  • Entre outras.

Ninguém sabe à partida a forma mais efetiva de estudo, sem experimentar várias técnicas, e por isso nós pais e professores temos a função de lhes mostrar o que existe, permitir que explorem e encontrem por tentativa e erro o que melhor encaixa naquele momento para o seu perfil.

Lembrem-se a escola não precisa de ser uma “seca”, afinal passam lá a maior parte do dia, vamos aproveitar ao máximo?!

Mentalidade de crescimento

Há um tema que tenho vindo a trabalhar cada vez mais com os “meus” jovens, e por isso vejo o sentido de urgência de começar o mais cedo possível na infância e de até desenvolver nos pais.

Acredito que este regresso às rotinas e com elas também aos stresses e desafios diários pode ser uma excelente oportunidade para desenvolvermos, enquanto família, um mindset de crescimento. Pois se a atitude mental é apenas uma crença, em que é que escolhemos acreditar?

E é sobre atitude mental que vos quero falar, a forma como cada um enfrenta os seus problemas e lida com os seus fracassos é a chave crucial para o sucesso. A ideia que os nossos erros são uma dádiva é algo difícil numa sociedade onde o erro ainda é muitas das vezes visto como algo vergonhoso e que deve ser punido. A ideia de que errar é mau é-nos incutido desde cedo. É cultural e tem vindo a passar de geração em geração. Infelizmente ainda é muito visto como algo de que nos devemos culpabilizar e que até deve ser castigado. Mas será?

Não sei quanto a vocês, mas eu não conheço ninguém que já saiba tudo ou nunca tenha errado e tenho para mim que é em casa, o local seguro por excelência, onde podemos errar para aprender, sendo a escola o prolongamento desse espaço seguro e com o objetivo principal de ensinar, sempre achei que seria também ela, o local ideal para errar, pois só assim aprendemos, não só as matérias mas também como pessoas.

Sinto como urgente mudar esta mentalidade, talvez até seja mesmo o ponto de partida para gerar novamente a motivação pela aprendizagem, algo que tantos dizem como perdida.

Para isso é essencial acreditar que todos têm as capacidades e as podem desenvolver, através do esforço e empenho intencional que nos permite progredir a assim gerar auto motivação.

Ao potenciarmos o melhor de cada um estamos a permitir que todos contribuam e se sintam parte do grupo, isso é possível nas pequenas situações do dia-a-dia e nos grandes desafios.

Perante uma dada situação podemos perguntar aos nossos filhos/ alunos:

“Para este trabalho/tarefa qual vai ser a tua contribuição?”

“Que forças/ capacidades vais usar?”

“Como o vais fazer?”

Ao longo do percurso faz toda a diferença sublinhar o empenho e o esforço, ajuda a manter a motivação e reforçar a ideia de que mais importante que o resultado final é a forma como nos colocamos perante um desafio.

Para isso nós, pais, professores e educadores devemos estar abertos para aceitar um resultado que não seja perfeito ou conforme as nossas expectativas, aceitar que podem ter um tempo diferente do nosso, ajudá-los a descobrir novos caminhos e desfrutar desse percurso, a se entusiasmarem perante os desafios. Em vez de julgar podemos ensinar, pois tudo é um processo de aprendizagem.

A mentalidade de crescimento é algo que se cultiva e principalmente se mostra pelo exemplo, deixo-lhe a questão: Que tipo de mentalidade tem cultivado dentro de si e na sua família?

Férias o Ano todo?!

É tempo de férias, tempo de lazer de descontrair e aproveitar! Será?

Acredito que muita da nossa ansiedade está relacionada com as expectativas, os cenários idílicos que criamos, quer seja pelo desgaste que vamos acumulando durante o ano, quer seja pela nossa necessidade de sentir que estamos a fazer tudo bem e temos a família perfeita. Claro que é importante imaginar e desejar o melhor, o que é diferente de imaginar e desejar o irreal e impossível.

Vamos criando imagens de que as férias vão ser perfeitas, que vamos descansar, que não vai haver birras, nem discussões, que finalmente vamos usufruir da nossa família e descontrair. A verdade é que não existem filhos sem birras, famílias sem percalços, relações sem desafios. O que existe são formas de percecionar tudo isso como oportunidades de crescimento, de fortalecer os laços e desenvolver novas estratégias.

Mas será que o tempo de férias tem mesmo de ser assim algo tão disruptivo que altere toda a dinâmica familiar, talvez isso seja saudável para uns e prejudicial para outros, ou talvez estejamos a ver o nosso dia a dia de uma forma tão pesada e negativa que as férias tornam-se no único escape possível.

Fomos educados nesta dicotomia em que trabalhar é mau, é pesado e só o fazemos para ter “direito” às férias.

Dizemos aos nosso filhos que primeiro têm de fazer os trabalhos e depois podem ir brincar, e depois estranhamos que quando queremos que eles estudem, leiam um livro ou façam fichas nas férias, nos respondam “mas são férias, é para brincar!”. Foi assim que nos ensinaram e por isso repetimos o que aprendemos e vamos criando as nossas próprias armadilhas.

Então como podemos trazer as férias para o resto do ano? Para que depois quando elas realmente acontecem tudo se torne mais fluido.

Uma possibilidade é ao longo do ano juntar, juntar o lazer e o trabalho, o lúdico às obrigações, o nosso dia-a-dia não tem de ser penoso, muito pelo contrário, podemos “tirar férias” em vários momentos, as rotinas são importantes, quebrá-las também. Retirar prazer das pequenas coisas, aproveitar mais o momento e permitirmo-nos sem culpa, sem tem que!

É algo que eu própria estou a aprender, todos os dias, o deixar fluir, e sei que não é fácil, e também sei que quando o consigo é muito mais saudável e alinhado com o que acredito e por conseguinte melhor para todos!

E assim, quando chegam as férias “à séria”, acaba por ser uma transição mais suave, sem destabilizar emocionalmente, em que se consegue um maior equilíbrio, em que os nossos filhos sabem gerir o ficar desempregados e tirarem proveito desse tempo tão preciso de não ter nada para fazer, lidar com o tédio é algo muito importante, estimula a criatividade e ajuda a aprender a gerir as frustrações, para além de que sem rede de segurança os nossos filhos aventuram-se para fora da sua zona de conforto, exploram situações novas. E quem sabe que grandes aprendizagens as férias nos podem trazer, fico à espera dessas aventuras!

Somos Seres Sociais

Um dos motivos que hoje em dia deixa os pais mais preocupados, é a socialização dos seus filhos. Por várias razões diferentes, mas todas têm em comum a dificuldade deles terem e manterem

relações saudáveis entre os pares.
A questão da pandemia e o isolamento a que fomos obrigados é dos primeiros pontos que os pais me trazem. E é facto que os vários confinamentos retiraram a hipótese de socializar presencialmente e com isso todas as aprendizagens implicadas, qualquer que seja a idade. Também é facto que estas circunstâncias apenas exacerbaram uma série de situações que já existiam e que agora tornaram-se ainda mais preocupantes. É por isso fundamental os pais notarem os seus próprios comportamentos, de que forma gerem as suas amizades, o que fazem para fomentar essas relações e as dos seus filhos, pois só assim podemos inverter o ciclo do isolamento.

Outro ponto importante relacionado tanto com a socialização, como também ele aumentado pela pandemia, é o uso excessivo de aparelhos eletrónicos, sejam eles o computador, tablet, telemóvel, para as redes sociais, jogos, séries, o que for. A verdade é que este é um comportamento realmente perigoso, não só em termos sociais como também em termos da própria saúde. Mais uma vez é importante estarmos atentos ao nosso próprio exemplo, quanto tempo eu passo em frente a um ecrã, que regras é que eu talvez precise de colocar para mim mesma, que alternativas eu ofereço ao meu filho que tragam tanto ou mais prazer do que um jogo de computador. Deixar bem claro e definido o que é permitido para todos é o primeiro passo!

Outra situação, infelizmente cada vez mais frequente e em crianças mais novas, são as relações tóxicas, que muitas das vezes também acontecem através das redes sociais. Aquela(e) amiga(o) que obriga a que se faça alguma coisa para que se pertença a um determinado grupo, ou que manipula numa necessidade de atenção e através da vitimização subjuga o outro, relações de dependência extrema que no fundo demonstram uma insegurança e falta de confiança de parte a parte.

Tudo isto acaba por estar interligado à auto imagem que a criança/ jovem tem de si mesma, pois é essa imagem que se vai projetar na relação com o outro. Perceber como os nossos filhos se vêem, ajudar a identificar as suas características como algo mutável que podem sempre desenvolver e não como rótulos e estereótipos que os limitem, é fundamental. Evidenciar as suas forças e como as podem utilizar em ações concretas do dia a dia é outra ferramenta eficaz.

Criar espaço para o diálogo aberto, sem julgamentos, disponível para ajudar a que eles encontrem as suas formas de lidarem com os seus desafios é o que vai permitir que desenvolvam, também eles, relações saudáveis e sustentáveis.

Num contexto cada vez mais virtual é urgente que nós pais demos espaço e tempo para que as relações aconteçam e se desenvolvam num ambiente seguro, afinal de conta somos seres sociais que interagimos num determinado contexto em que estamos inseridos, onde influenciamos e somos influenciados por ele.